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SAMUEL CABRAL

FADO














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O Fado é um sopro vibrante que a voz recebe da alma. é um lamento de se trazer um excesso vital dentro do peito. Um excesso de dor, de alegria, de utopia e das várias emoções vividas. Fado é expressão do sentimento de se estar vivo. Cada pessoa encarna um destino, uma forma e uma emoção única e pessoal; simultaneamente comunga com as outras pessoas muitas realidades. O Fado tem portanto uma dimensão pessoal e uma dimensão colectiva. Fala da contingência e da fatalidade de se existir, de como se vive e de como se morre. Fala do encontro do simples e do transcendente no coração de cada um.
O Fado apareceu em Lisboa, por volta de 1840, das canções dos marinheiros para as dos rufias. Cantava-se nas tascas, nas ruas, nas hortas, nas esperas de gado. Em 1850 era, também, já cantado no Porto.
A Lisboa da época, ainda muito rural, era palco do fenómeno emergente do crescimento urbano, pela migração dos campos para as cidades. O Fado é portanto a expressão de uma nova forma de vida e de sociabilidade. Recebeu influências artísticas várias; das canções dos marinheiros, dos camponeses, das sonoridades árabes das mourarias, dos lamentos e dos ritmos africanos, das danças da moda e do folclore tradicional. Pelo seu valor conquistou a Aristocracia e começou a ser cantado nos salões e festas. São referências desta época Maria Severa e a Cesária.
Depois da queda da monarquia, o Fado continuou durante a república. No Estado Novo houve uma certa apropriação pelo regime, como forma de propaganda. Salazar tinha o mote “futebol, fado e Fátima” como desígnio para Portugal. Esta apropriação afastou muita gente do Fado por o conotar com o regime. No entanto a ditadura acabou e o Fado continuou. Eram fadistas de referência nas primeiras décadas do século XX, entre outros, Alfredo Marceneiro e Fernando Farinha. Amália Rodrigues é o nome incontornável do Fado de então e que trouxe o Fado até aos dias de hoje.
Cantora eximia, levou o Fado a todo o país e além fronteiras. Cantou em português e em várias outras línguas. Cantou Fado Antigo e Fado Novo, letras populares e os grandes poetas. Escreveu e cantou letras e músicas próprias. Manteve boas relações com o regime sem lhe pertencer. A sua carreira, de mais de 50 anos, foi uma vida dedicada ao Fado, que abriu o caminho para o futuro e a uma nova geração interessada e activa. São fadistas seus contemporâneos na segunda metade do século XX: Maria Teresa de Noronha, João Ferreira Rosa, Lucília do Carmo, Carlos do Carmo, Vicente da Câmara, Maria da Fé, entre outros.
São nomes da nova geração: Mísia, Mariza, Camané, Mafalda Arnauth, Ana Sofia Varela, Ana Moura, Kátia Guerreiro, entre outros.
Hoje o Fado é reconhecido como canção nacional e até como imagem de marca. Uma nova geração está lhe a dar continuidade e tem querido inovar.
Inicialmente cantado nas tabernas, o Fado é hoje cantado por artistas profissionais em salas de concertos e por amadores, adultos e crianças, em colectividades e associações, por todo o país e junto das nossas comunidades no estrangeiro.
Hoje há muita gente a cantar o Fado e parece-me que nos encontramos numa encruzilhada. A que a questão é: como é que o Fado, que surgiu ainda na época romântica, será de hoje em diante, recriado nesta época contemporânea, época tão diferente, sem cristalizar, mas também sem se descaracterizar ou extinguir?



Guiomar Macedo, Casa da Mariquinhas, Abril de 2005